•O ENVELHECIMENTO•

 

O envelhecimento é um processo cronológico, universal e inevitável. Mas também é biopsicológico, ou seja, sendo um reflexo do envelhecimento cronológico, não é um processo linear ou exclusivamente subordinado à idade, dependendo a sua manifestação das experiências de vida, dos hábitos e estilos de vida, do género e de outras condicionantes genéticas e sociais. É, simultaneamente, um fenómeno individual, percepcionado de forma idiossincrática, mas também colectivo, influenciado pelo modo como a sociedade o encara e enfrenta.

 

O envelhecimento ocorre ao longo de todo o ciclo de vida e está sujeito a um conjunto complexo de factores. A um nível biológico, está associado à acumulação gradual de danos moleculares e celulares, que conduzem à diminuição das capacidades fisiológicas e aumentam o risco de doença(s). Mas envolve também outro tipo de mudanças: psicológicas, nos papéis e posições sociais, na própria identidade, na rede de apoio social, no conjunto de objectivos, motivações, prioridades e preferências.

 

O envelhecimento é um fenómeno paradoxal. Se, perspectivado enquanto resultado dos progressos realizados pela humanidade em termos económicos, sociais, biomédicos e tecnológicos, é um processo positivo, quer para os indivíduos, quer para a sociedade, a longevidade também pode trazer mudanças menos positivas. Por um lado, e a nível individual, o risco de desenvolver doenças aumenta com a idade, assim como a probabilidade de confronto com problemas acrescidos de autonomia e dependência dos outros ou com a diminuição da capacidade financeira e da rede de apoio pessoal e social. A nível social, o envelhecimento pode destacar os riscos inerentes à sustentabilidade dos sistemas de Saúde e Segurança Social e exigir uma revisão das relações intergeracionais – sociais e económicas. Por outro lado, e apesar de o poderem acompanhar, a redução da capacidade funcional e o acentuar de vulnerabilidades de Saúde e económicas, não precisam de definir o envelhecimento nem de justificar limitações na vida social (e, muito menos, exclusão social). 

 

Existem vários preconceitos e estereótipos, atitudes, crenças e suposições erróneas relativamente ao processo de envelhecimentoe aos cidadãos mais velhos.  As percepções sociais focam-se frequentemente no declínio e na diminuição das capacidades e do valor dos cidadãos sénior. Estas percepções contaminam as expectativas e as experiências de vida em diferentes áreas, como a saúde, o trabalho ou o lazer. O idadismo, a discriminação com base na idade, cria barreiras importantes ao processo de envelhecimento saudável e bem-sucedido, quer a nível individual quer comunitário.

 

Não é, todavia, imperativo que assim seja. Em primeiro lugar porque não existe fundamento científico para as ideias de acordo com as quais os cidadãos mais velhos são menos produtivos, mais resistentes à mudança, menos capazes de lidar com a tecnologia ou mais frágeis, por exemplo. E também porque os avanços sociais e tecnológicos podem precisamente contribuir para construir um futuro no qual a vitalidade e funcionalidade física, mental e emocional são mantidas e potenciadas ao longo da vida.

 

De acordo com a investigação científica, o envelhecimento também se associa a dimensões positivas, como a sabedoria, a maturidade emocional ou a capacidade de usar estratégias pró-activas capazes de dar maior significado à vida.

 

Deste modo, as repostas públicas ao envelhecimento não podem considerar apenas as perdas associadas ao processo de envelhecimento ou os seus potenciais custos económicos e sociais. É preciso ter também em conta também os mecanismos de recuperação, adaptação e desenvolvimento psicológico e social que co-ocorrem. O desafio social que o envelhecimento representa pode ser pensado, ao invés de como um imperativo para a redução de custos, a partir de uma estratégia de maximização dos dividendos do facto de vivermos vidas mais longas e não numa lógica de redução de custos. 

 

Neste sentido, demógrafos de vários países têm questionado os parâmetros actuais para a definição e a medição do que é ser idoso, tendo em conta as mudanças sociais em curso. Na realidade, os estilos de vida, os níveis de saúde e as condições de trabalho melhoraram, e a esperança média de vida ultrapassa os 80 anos. Já não se é “velho” aos 65 anos de idade e, portanto, este marcador etário perde, nas sociedades ocidentais, sentido. Está provado que os 70 anos de hoje são os antigos 60. Por exemplo, no Japão, quem tem hoje 75 anos caminha com a mesma veloComunidade e mantém a força nas mãos do que quem tinha 65 anos há duas décadas. As características e capacidades das pessoas com 65 anos são muito diferentes das do passado. Não há justificação médica ou biológica para considerar idoso alguém com uma idade cronológica correspondente a 65 anos. Fazê-lo pode significar desperdiçar capital humano, ameaçando assim a própria sustentabilidade dos sistemas social e económico. 

 

Existem vários preconceitos e estereótipos, atitudes, crenças e suposições erróneas relativamente ao processo de envelhecimentoe aos cidadãos mais velhos.  As percepções sociais focam-se frequentemente no declínio e na diminuição das capacidades e do valor dos cidadãos sénior. Estas percepções contaminam as expectativas e as experiências de vida em diferentes áreas, como a saúde, o trabalho ou o lazer. O idadismo, a discriminação com base na idade, cria barreiras importantes ao processo de envelhecimento saudável e bem-sucedido, quer a nível individual quer comunitário.

 

Não é, todavia, imperativo que assim seja. Em primeiro lugar porque não existe fundamento científico para as ideias de acordo com as quais os cidadãos mais velhos são menos produtivos, mais resistentes à mudança, menos capazes de lidar com a tecnologia ou mais frágeis, por exemplo. E também porque os avanços sociais e tecnológicos podem precisamente contribuir para construir um futuro no qual a vitalidade e funcionalidade física, mental e emocional são mantidas e potenciadas ao longo da vida.

 

De acordo com a investigação científica, o envelhecimento também se associa a dimensões positivas, como a sabedoria, a maturidade emocional ou a capaComunidade de usar estratégias pró-activas capazes de dar maior significado à vida.

 

Deste modo, as repostas públicas ao envelhecimento não podem considerar apenas as perdas associadas ao processo de envelhecimento ou os seus potenciais custos económicos e sociais. É preciso ter também em conta também os mecanismos de recuperação, adaptação e desenvolvimento psicológico e social que co-ocorrem. O desafio social que o envelhecimento representa pode ser pensado, ao invés de como um imperativo para a redução de custos, a partir de uma estratégia de maximização dos dividendos do facto de vivermos vidas mais longas e não numa lógica de redução de custos. 

 

Neste sentido, demógrafos de vários países têm questionado os parâmetros actuais para a definição e a medição do que é ser idoso, tendo em conta as mudanças sociais em curso. Na realidade, os estilos de vida, os níveis de saúde e as condições de trabalho melhoraram, e a esperança média de vida ultrapassa os 80 anos. Já não se é “velho” aos 65 anos de idade e, portanto, este marcador etário perde, nas sociedades ocidentais, sentido. Está provado que os 70 anos de hoje são os antigos 60. Por exemplo, no Japão, quem tem hoje 75 anos caminha com a mesma veloComunidade e mantém a força nas mãos do que quem tinha 65 anos há duas décadas. As características e capaComunidades das pessoas com 65 anos são muito diferentes das do passado. Não há justificação médica ou biológica para considerar idoso alguém com uma idade cronológica correspondente a 65 anos. Fazê-lo pode significar desperdiçar capital humano, ameaçando assim a própria sustentabilidade dos sistemas social e económico. 

 

Actualmente defende-se que o valor social dos cidadãos deve ser medido consoante o número de anos de vida que ainda têm pela frente, mais do que pelos anos que já viveram. Neste sentido, a idade de início da velhice deve ser móvel e basear-se naidade prospectiva, ou seja, quando restarem 15 anos para a morte (isto é, com base nas tabelas de mortalidade, com que idade é que as pessoas têm 15 anos de expectativa de vida). De acordo com a idade prospectiva actual, em Portugal, hoje as mulheres precisariam de chegar aos 71 e os homens aos 68 para serem considerados idosos. 

 

Esta alteração pode contribuir para alterar a forma como encaramos o envelhecimento (e o envelhecimento demográfico), valorizamos socialmente os cidadãos seniores e gerimos a transição da vida activa para a não activa, produzindo consequências positivas quer na economia quer na saúde e no bem-estar. Há, inclusivamente, investigadores que falam numa nova fase do desenvolvimento: a gerontolescência (situada entre os 50 e os 75 anos) – fase em que os adultos experimentam novas autodescobertas e processos de construção de identidade e autonomia, como uma espécie de segunda adolescência. 

 

Consideramos então o envelhecimento como um processo de mudanças sistemáticas e significativas, que acontecem ao longo de toda a vida (e não apenas na infância e juventude). Centramo-nos, neste documento e nesta Campanha, naquelas que acontecem e afectam os adultos (menos e mais velhos), por serem, do ponto de vista sociopolítico, das que mais transformações sociais e nas trajectórias de vida podem trazer.

 

 •DIMENSÕES DO ENVELHECIMENTO SAUDÁVEL

E BEM-SUCEDIDO•

 

A forma como envelhecemos decorre da forma como nos desenvolvemos, dos comportamentos e escolhas que fazemos ao longo da vida e dos contextos onde ocorrem.

 

Correspondendo à ideia de que não se deseja apenas uma vida mais longa, mas uma vida com qualidade de vida, surge o conceito de envelhecimento saudável e bem-sucedido. A OCDE entende-o como a capacidade de manter uma vida produtiva na sociedade e na economia à medida que se avança em idade, repartindo autonomamente o tempo de vida entre actividades de aprendizagem, trabalho, lazer e cuidados aos outros. A OMS destaca os aspectos funcionais e qualidade de vida através da optimização das possibilidades de saúde, participação e segurança. Já a Comissão Europeia enfatiza a educação ao longo da vida e o prolongamento da vida activa.

 

O envelhecimento saudável e bem-sucedido depende da capacidade que os adultos têm de adaptação às circunstâncias, que passa por manter os cidadãos activos e satisfeitos a todos os níveis, levando-os a um contínuo investimento e não desinvestimento na vida e no seu desenvolvimento.

 

De seguida analisamos brevemente aquelas que consideramos serem dimensões fulcrais para um envelhecimento saudável e bem-sucedido: segurança, habitação e mobilidade; bem-estar e Saúde; relações sociais e inclusão; cultura e educação ao longo da vida; participação cívica e emprego.

 

Segurança, Habitação e Mobilidade

 

A segurança pessoal e financeira, uma habitação condigna, assim como a mobilidade são das necessidades básicas mais importantes e facilmente identificadas por qualquer cidadão. A criação e manutenção de contextos e espaços favoráveis e facilitadores do envelhecimento é indispensável à promoção do bem-estar, da autonomia e da participação cívica dos cidadãos ao longo da vida.

 

A análise de alguns dados disponíveis, revela que estas necessidades são especialmente prementes no caso dos cidadãos seniores:

  • Em 2016, a taxa de cobertura dos equipamentos sociais de apoio aos idosos (como Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas - ERPI, centros de dia ou serviços de apoio domiciliário) não passava de 12,9% e a oferta existente consistia quase exclusivamente em alojamento em quarto. A possibilidade de optar por residir em apartamento ou moradia não passava de 3%.

 

  • Em 2017, a pobreza entre os idosos portugueses estava fixada nos 18,8% (do total de pessoas em pobreza; os resultados do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento dão conta de 2.399 milhares de pessoas em risco de pobreza, o equivalente a 23,6% da população).

 

  • Em 2019, um estudo da Universidade do Porto, apontou para uma prevalência de 20% de abuso psicológico a afectar os cidadãos mais velhos.  De acordo com a APAV, a violência contra idosos aumentou mais de 30% nos últimos anos. Das 5683 pessoas idosas que a Associação apoiou entre 2013 e 2017, a maioria foi vítima de crimes e violência e eram mulheres.

 

  • O principal mecanismo de lesão para a população a partir dos 65 anos é a queda, apresentando uma frequência de 90% no grupo etário com mais de 75 anos. A maior parte dos acidentes ocorre em casa e o tempo de internamento consequente é, em média, de 11 dias, nas pessoas com mais de 75 anos. Após a alta hospitalar, a taxa de mortalidade aos 3 meses é de 10,2% e aos 6 meses de 14,1%. Uma das principais consequências das quedas são as fracturas e, entre estas, a do fémur é das mais frequentes. Em Portugal estima-se que, após um ano de Fracturas da Extremidade Proximal do Fémur, 10% a 20% dos doentes acabam por falecer, 50% apresentam perda funcional e/ou motora, e apenas 30% ontém recuperação funcional para os níveis anteriores à fractura.

 

A segurança pessoal passa pela percepção e pela realidade de um ambiente seguro, quer na comunidade em que se vive quer em casa. Os cidadãos precisam de sentir que vivem num bairro seguro, onde não existem abusos (físicos, sexuais, psicológicos ou financeiros) ou crime e numa habitação segura e condigna, que lhes dê conforto e não os coloque em risco de quedas, acidentes ou lesões. Um ambiente e uma habitação seguros estão associados não só a bem-estar e saúde, mas também a autonomia, assim como a impactos positivos na rede de relações sociais dentro e fora de casa, facilitando o envolvimento com a comunidade.

 

Especificamente no caso dos cidadãos mais velhos, poderão ser necessárias algumas adaptações nos espaços públicos e privados que trarão benefícios na facilitação das tarefas quotidianas e na redução de riscos para a saúde e a segurança – por exemplo, remoção de obstáculos à mobilidade física, como degraus; providenciar ajudas à mobilidade, como barras de apoio no chuveiro; promoção do conforto, como o aumento da eficiência energética; aumento da segurança, como a introdução de chão antiderrapante nas habitações ou estruturas físicas da comunidade.

 

No que diz respeito à segurança financeira, não se trata apenas de garantir pensões sociais para os cidadãos seniores, mas de proporcionar diferentes formas de apoio directo e indirecto, que podem passar, por exemplo, pela possibilidade de manter a vida activa até mais tarde ou ter acesso a serviços de apoio no domicílio.

 

A mobilidade é outro aspecto fundamental para o envelhecimento saudável, referindo-se quer à mobilidade do próprio corpo, quer àquela que implica o recurso a um veículo. Inclui levantar-se de uma cadeira, mover-se de uma cama para uma cadeira, caminhar, fazer exercício, realizar tarefas quotidianas, conduzir um carro ou utilizar os transportes públicos. A mobilidade é condição para outros aspectos do envelhecimento bem-sucedido, como o bem-estar ou a participação nas actividades sociais e culturais. É influenciada não apenas pela capacidade intrínseca do indivíduo, mas também pelo ambiente em que este vive.

 

A actividade física regular é essencial e está inextricavelmente ligada a aspectos cruciais para o bem-estar dos cidadãos de todas as idades – por exemplo, a melhorias no sistema imunitário e na resistência à doença, à autonomia e independência e à manutenção de redes socias. Sabemos que os cidadãos mais sedentários têm maior probabilidade de desenvolver quadros depressivos (33%) do que os cidadãos mais activos (12%). Neste sentido, devem ser promovidas oportunidades de realização de actividade física, implementando políticas e estratégias que eliminem potenciais barreiras e rentabilizem a forma como o espaço é utilizado, a sua estética, acessibilidade, conexão com o design urbano e percepção de segurança. Por exemplo, investir em passeios amigos dos pedestres, com sinalização adequada e de grande visibilidade, assim como espaços para descansar na rua e casas de banho públicas; reduzir os limites de veloComunidade e implementar medidas para diminuir o trânsito; manter os passeios bem cuidados; assegurar que os semáforos das passadeiras permitem o tempo adequado para se atravessar e incluem ajudas auditivas; assegurar que existem características esteticamente agradáveis nas ruas e parques, como árvores, jardins, vegetação e zonas de repouso; garantir que os bairros estão construídos de modo a permitir um acesso fácil, a partir de casa, a um grande número de destinos, como lojas, serviços de saúde, centros comunitários e organizações religiosas.

 

No caso específico dos cidadãos sénior, é necessário disponibilizar tecnologias assistidas que facilitem a mobilidade, como as bengalas, os andadores ou as cadeiras de rodas. Mas também, promover programas comunitários que incluam actividade física e treino de força, resistência, equilíbrio e flexibilidade. Promover a actividade física entre os cidadãos mais velhos, pode optimizar a saúde, a funcionalidade e a qualidade de vida, minimizando os efeitos adversos associados aos estilos de vida sedentários e reduzindo o risco de doenças e acidentes domésticos.

 

Para além disso, e sabendo que os cidadãos mais velhos usam meios de transporte públicos, sobretudo os autocarros, para se deslocarem, é necessário melhorar a disponibilidade e a acessibilidade destes transportes, aumentando a sua relevância e conveniência. Por exemplo, fazendo alterações nas rotas e horários ou ambos; aumentar a acessibilidade financeira, oferecendo a gratuidade ou preços reduzidos; assegurar que existe informação disponível e de leitura simples sobre o sistema (os horários, por exemplo); proporcionar lugares prioritários para pessoas com mobilidade reduzida; formar os operadores de transportes para considerar a necessidade de ajuda ou mais tempo para entrar nos transportes públicos.

 

Bem-Estar e Saúde

 

O declínio gradual do estado de Saúde é uma das características mais frequentemente associadas ao envelhecimento e que, porventura, mais condiciona este processo, sobretudo nos casos em que existe uma doença crónica e/ou quadros clínicos que provocam incapacidades, afectando a vida quotidiana e a autonomia dos cidadãos. 

 

Sabemos que, com o aumento da idade, ocorrem um conjunto de mudanças fisiológicas que aumentam o risco de doença, nomeadamente, de doença crónica. A partir dos 60 anos, o principal encargo por incapacidade e morte advém de perdas, associadas à idade, de audição, visão e mobilidade, assim como de doenças não comunicáveis (incluindo as doenças cardíacas, os acidentes vasculares cerebrais, as doenças respiratórias crónicas, o cancro ou a demência). Há ainda que considerar o impacto (na capaComunidade individual, assim como na utilização e custo dos cuidados de Saúde) da multimorbilidade.

 

O envelhecimento é também cada vez mais associado às Demências, cuja prevalência aumenta com a idade, duplicando a cada cinco anos após a sexta década de vida. As Demências correspondem a um conjunto de situações clínicas em que existe uma lesão do Sistema Nervoso Central, com diversas causas, que determinam um declínio súbito ou progressivo da capacidade de pensar, recordar e aprender, afectando as actividades do dia-a-dia, a autonomia e o relacionamento social. Portugal é o quarto país da OCDE com mais casos de Demência, com 19,9 casos por mil habitantes – um valor superior à média dos 35 países avaliados. Estima-se que existam 182 mil portugueses com Demência e que, em 2037, a prevalência das Demências em Portugal aumente para os 32,5 por mil habitantes. Para além da mortalidade atribuída às Demências, a morbilidade que lhe está associada é elevada, estimando-se que contribua com mais de 11,9% dos anos vividos com incapacidade nas pessoas acima dos 60 anos – valor superior, por exemplo, ao calculado para os AVC (9,5%) ou para as doenças cardiovasculares (5%). As Demências têm um grande impacto não apenas nos indivíduos afectados, mas também nos seus cuidadores.

 

Por outro lado, o bem-estar está associado à sobrevivência da população, nomeadamente à da população com mais de 60 anos, correlacionando-se inversamente com todas as causas de mortalidade. A taxa de mortalidade para os cidadãos com mais de 75 anos e um nível de bem-estar baixo é 30% superior. É ainda do estado de saúde e bem-estar que depende a possibilidade de os cidadãos contribuírem activamente para a sociedade – seja no contexto da família, na comunidade onde vivem ou para a sociedade de forma mais ampla.

 

Neste sentido, a promoção da saúde e do bem-estar tem um papel muito importante no envelhecimento saudável e bem-sucedido. A maior parte dos problemas de Saúde pode ser prevenida ou adiada através de alterações nos comportamentos e estilos de vida, e da criação de ambientes seguros e de apoio físico e social que garantam a mobilidade e a funcionalidade de todos os cidadãos. É o acumular de comportamentos e experiências favoráveis ou desfavoráveis, ao longo da vida, que faz com que o envelhecimento dos cidadãos seja mais ou menos saudável e bem-sucedido.

 

Numa realidade em que os cidadãos são encorajados e adoptar estilos de vida que incluam comportamentos alimentares saudáveis, exercício físico e redes sociais diversificadas, mesmo as pessoas com doenças ou incapacidades podem permanecer activos e independentes, mantendo qualidade de vida.

 

A saúde, o bem-estar e a satisfação com a vida dependem e integram recursos pessoais (competências, educação, redes sociais e capacidade financeira, por exemplo) e recursos sociais (apoios comunitários, recursos no campo da educação e da saúde, por exemplo). Portanto, é necessário consolidar estes alicerces para a construção de um envelhecimento saudável e bem-sucedido.

Relações Sociais e Inclusão

 

A evidência científica comprova existir uma associação entre o bem-estar e a qualidade de vida, ao longo do ciclo de vida e, sobretudo na velhice, o grau de inclusão social e a qualidade das relações sociais, o apoio emocional e instrumental que se dá e se recebe. Esta associação estende-se ao estado de saúde e até à redução do risco de mortalidade.

 

As redes de relações sociais possibilitam aos cidadãos manter a sua identidade pessoal e social, receber apoio emocional, ajuda material e informação/recursos ou estabelecer novas relações com os outros e, por isso, são fundamentais para o bem-estar e para a qualidade de vida ao longo do processo de envelhecimento. Esta relevância é reconhecida pelos próprios cidadãos que, de acordo com diversos estudos, assumem como sendo um dos principais factores para envelhecer bem o facto de ter família e amigos com quem possam contar. 

 

A capacidade de manter e construir relações sociais tem impacto nas restantes capacidades, tal como na mobilidade e na participação activa na comunidade. No caso dos cidadãos seniores esta capacidade é particularmente prioritária dada a importância de um leque alargado de relações, que inclua familiares, amigos, vizinhos e prestadores de serviço da comunidade.

 

Cultura e Educação ao Longo da Vida

 

A aprendizagem ao longo da vida e a participação em actividades culturais e recreativas, afectam a saúde e a qualidade de vida dos cidadãos, assim como a competitividade económica das comunidades. Enriquecem não apenas a vida laboral, mas também a realização pessoal dos cidadãos, permitindo-lhes manter-se envolvidos e participantes na sociedade durante toda a vida.

 

Deste modo, as actividades de formação e educação, descanso e lazer devem prolongar-se ao longo de todo o ciclo de vida. Ainda que possa ser necessário haver alterações em função da idade, características e interesses pessoais, o processo de formação e participação em actividades culturais e de lazer só deve terminar quando haja impossibilidade de incorporar conhecimento ou de usufruir desse tipo de iniciativas.

 

No caso específico dos cidadãos sénior, continuar a aprender e a participar em oportunidades culturais permite-lhes manter e actualizar conhecimentos, assim como competências para gerir a saúde e adaptar-se aos processos que ocorrem frequentemente na velhice (como a reforma, a viuvez ou tornar-se cuidador); manter a sua identidade, sentido de controlo e um desenvolvimento mental, físico, social e emocional contínuo. Os cidadãos seniores que continuam a aprender e se mantêm culturalmente activos são mais autoconfiantes, envolvem-se mais nas actividades das suas comunidades, são menos dependentes da família e dos serviços sociais do Estado, são mais saudáveis e apresentam maiores níveis de bem-estar.

 

Neste sentido, e contrariando a realidade mais frequente, é necessário criar oportunidades, programas e actividades, baseados na aprendizagem, na cultura e nas artes que sejam dirigidos e/ou que rentabilizem a contribuição dos cidadãos e, especificamente dos cidadãos seniores, envolvendo-os inclusivamente no seu planeamento, assegurando o seu direito à participação. A existência destas oportunidades permite aos cidadãos expressar a sua identidade e a sua história, promovendo os recursos da comunidade e a aprendizagem inter-geracional, combatendo o idadismo e promovendo o respeito pela diversidade.

 

Neste âmbito, a melhoria do acesso à informação e às tecnologias de comunicação deve constituir uma prioridade. De acordo com o Observatório da Natalidade e do Envelhecimento, em Portugal, 45% dos reformados não tem acesso a computador e apenas 40% usa regularmente o computador, sendo que apenas 36% acede diariamente à internet. O desenvolvimento de conhecimentos e competências de literacia digital é também uma ferramenta de integração e educação dos cidadãos sénior, permitindo-lhes, entre outras coisas, trabalhar em part-time ou desenvolver actividades de consultoria, enviar emails a familiares, encontrar informação ou ler o jornal com um tamanho de letra adequado às suas necessidades.

 

Participação Cívica e Emprego

 

Socialmente não é indiferente ser-se jovem ou mais velho. Conforme a idade é esperada dos cidadãos uma participação social diferente, sendo que, frequentemente, a atribuição de capital social é independente das reais capacidades do cidadão, considerando-se indiscriminadamente que os mais velhos são menos interessantes e valiosos do que os mais novos.

 

A participação na vida cívica pode ser formal (actividades realizadas em organizações com objectivos definidos – políticos, culturais, religiosos ou outros) e informal (actividades desenvolvidas em contextos não organizacionais). Na realidade, ambas as formas de participação tendem a diminuir quando se considera o efeito etário. 

Contudo, todos os cidadãos, incluindo os cidadãos seniores, possuem competências, ideias, conexões e tempo que podem utilizar a favor da melhoria das comunidades onde vivem. Julgar a capacidades de alguém com base no seu ano de nascimento é uma forma de exclusão social, que empurra para a inactividade muitos cidadãos capazes e interessados em contribuir de forma activa para as suas comunidades. As mais-valias cívicas de todos os cidadãos implicam o desenvolvimento de novos modelos de encarar o processo de envelhecimento e de rentabilizar as suas potencialidades.

 

Neste sentido, e tendo em conta o aumento da longevidade e das condições de saúde, defende-se, cada vez mais, um modelo social em que a fase de produção, a “fase activa”, seja mais dilatada no tempo e mais flexível, nomeadamente através da criação de condições, de geometria variável, entre a carreira profissional e a inactividade, através de transições graduais e possibilidades de escolha de repartição dos tempos de aprendizagem, trabalho, lazer e cuidado aos outros. 

 

A sociedade deve organizar-se não para uma carreira profissional única, mas múltipla, que acompanhe a evolução física, mental, desenvolvimental e de competências dos cidadãos. Por exemplo, a vida activa pode começar mais cedo e terminar mais tarde, contemplando um aumento ou redução do número de horas dedicadas ao trabalho conforme o período do ciclo de vida (por exemplo, trabalhar menos horas no período em que os filhos são pequenos). Num esquema deste género, os cidadãos seniores poderiam exercer uma actividade até mais tarde, beneficiar de uma reforma parcial e sentir de forma menos intensa o embate da inactividade.

 

De acordo com o Observatório da Natalidade e do Envelhecimento em Portugal, cerca de 46% da população activa gostaria de trabalhar até as capaComunidades físicas o permitirem. E uma comunidade saudável envolve os cidadãos, de todas as idades, em trabalho significativo para o bem-comum, rentabilizando os talentos e capaComunidades de cada um para tornar a comunidade melhor para todos. Ter um trabalho, participar em actividades cívicas e de lazer, pode motivar os cidadãos sénior a permanecerem activos e socialmente conectados. 

© 2019 by Ordem dos Psicólogos Portugueses

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